Antes da libertina, existiu uma menina
Quem existe por trás das histórias
Hoje eu resolvi fazer uma coisa um pouco diferente.
Normalmente, quando vocês chegam aqui, encontram histórias.
Histórias de desejo, de encontros, de sedução, de curiosidade, de fantasias que começam em um olhar e terminam sabe-se lá onde. Algumas nasceram completamente da minha imaginação. Outras foram inspiradas em situações, sentimentos e experiências que, de alguma maneira, passaram pela minha vida.
Mas hoje eu não quero contar uma história sobre personagens.
Hoje eu quero falar sobre a mulher que está por trás delas.
A mulher que escreve.
Aquela que vocês conhecem apenas pelas palavras que aparecem na tela.
Talvez alguns de vocês já tenham criado uma imagem minha na cabeça.
Talvez imaginem quem sou, como sou, como me comporto, o que faço quando ninguém está olhando.
E, de certa forma, vocês têm razão.
Eu sou mesmo essa mulher curiosa, aventureira, criativa, sedutora, provocante.
Sou tímida em algumas situações e ousada em outras.
Gosto de conquistas, de paqueras, de jogos de sedução, daquela provocação que começa quase imperceptível e deixa a imaginação fazer o resto.
Gosto de despertar curiosidade.
Mas, principalmente, gosto da sensação de poder ser autêntica.
De não precisar caber naquilo que esperam de mim.
Talvez seja por isso que escrever tenha se tornado tão natural.
Aqui, por trás de uma tela, posso colocar em palavras pensamentos, fantasias, desejos e histórias que talvez muitas pessoas tenham dificuldade de dizer em voz alta.
E existe uma coisa curiosa sobre escrever sobre sexualidade.
Quem lê costuma imaginar que a pessoa que escreve sempre foi exatamente assim.
Segura.
Desinibida.
Experiente.
Sem medo.
Como se essa mulher tivesse simplesmente nascido pronta.
Mas não.
Eu não nasci pronta.
Eu também precisei descobrir quem eu era.
Também tive medos.
Também fui ingênua.
Também tomei decisões sem compreender completamente suas consequências.
Também tive partes de mim destruídas e precisei reconstruí-las.
E talvez seja justamente por isso que, hoje, eu consiga escrever sobre desejo de uma maneira tão livre.
Porque antes de entender a liberdade, eu precisei conhecer o medo.
Sempre gostei de escrever.
Desde criança, eu era apaixonada por livros e por histórias. Gostava de imaginar personagens, situações, possibilidades. Minha cabeça nunca foi um lugar muito silencioso.
Na adolescência, essa imaginação começou a ganhar outros contornos.
Eu tinha curiosidades que não sabia exatamente como explicar.
Aos 16 anos, antes mesmo de iniciar minha vida sexual, eu já me perguntava como seria beijar alguém, como seria estar intimamente com outra pessoa, o que se sentiria, como dois corpos se aproximavam, como funcionava aquela intimidade que parecia tão misteriosa.
Hoje parece tão simples falar sobre isso.
Mas naquela época não era.
Eu cresci no interior do Maranhão, em uma cidade pequena, em uma realidade muito diferente da que temos hoje.
Informação sobre sexualidade não chegava com facilidade.
Conversas abertas sobre sexo, consentimento, limites, relacionamentos abusivos, exposição na internet ou os riscos de compartilhar uma fotografia íntima praticamente não existiam dentro da minha realidade.
Eu tinha curiosidade.
Mas não tinha conhecimento.
E essa diferença é enorme.
Porque uma adolescente pode saber que está curiosa sem saber que está vulnerável.
Pode saber que está apaixonada sem saber reconhecer manipulação.
Pode querer ser desejada sem compreender que alguém pode usar esse desejo contra ela.
Foi assim que aconteceu comigo.
Eu tinha 16 anos quando conheci um rapaz.
Ele era sobrinho de um dos melhores amigos do meu pai.
Eu já o tinha visto algumas vezes em churrascos aos quais fui com meus pais.
Eu o achava bonito.
Ele tinha 18 anos, cabelos lisos, pele clara, era um pouco mais cheinho e não muito alto. Mas tinha um sorriso bonito. Vinha de uma família com boas condições financeiras e morava na cidade, enquanto eu vivia naquele interior onde tudo parecia acontecer devagar.
Aos olhos daquela menina, ele era interessante.
Eu o admirava.
Queria conversar com ele.
Queria descobrir se poderia existir alguma coisa entre nós.
Começamos a conversar pelo Facebook.
E eu estava vivendo aquilo pela primeira vez.
A expectativa de receber uma mensagem.
A ansiedade quando ele demorava a responder.
A vontade de conversar.
A imaginação criando possibilidades.
Eu achava que estava começando a gostar de alguém.
Talvez até imaginando, de maneira inocente, como seria namorar com ele.
Eu não sabia que aquela história estava prestes a tomar um rumo que mudaria minha vida.
No começo, ele sabia exatamente como me cativar.
Dizia coisas que mexiam comigo.
Fazia eu me sentir desejada.
Especial.
E eu fui me deixando envolver.
Até que, de repente, ele começou a desaparecer.
As mensagens ficaram mais raras.
Depois vieram os silêncios.
Eu mandava alguma coisa e não recebia resposta.
Esperava.
Olhava o celular.
Esperava novamente.
Eu não entendia o que tinha acontecido.
Fiquei ansiosa, desesperada, tentando descobrir por que ele havia mudado.
Até que, aproximadamente uma semana depois, ele apareceu novamente.
E eu fiquei feliz.
Não pensei no motivo de ele ter sumido.
Eu só queria que ele voltasse a falar comigo.
Foi quando ele colocou uma condição.
Disse que só continuaria falando comigo se eu fizesse uma coisa por ele.
Uma fotografia íntima.
Eu me lembro da confusão que senti.
Uma parte de mim sabia que aquilo era errado.
Outra parte, muito mais ingênua, pensava:
"Se eu fizer, talvez ele goste realmente de mim."
E foi exatamente aí que eu percebi, anos depois, como uma adolescente pode ser facilmente manipulada quando não tem informação e acredita que precisa provar seu valor para ser desejada.
Pensei durante alguns dias.
E mandei.
Hoje, olhando para aquela menina, eu não sinto raiva dela.
Sinto vontade de abraçá-la.
Porque ela não tinha ideia do que estava fazendo.
Não tinha ideia das consequências.
Não tinha informação suficiente para compreender a gravidade daquela escolha.
Ela só queria ser correspondida.
Só queria sentir que alguém gostava dela.
Depois daquela primeira fotografia, percebi que o interesse dele não era exatamente por mim.
Era pelo que eu podia oferecer.
Vieram novos pedidos.
E eu continuei cedendo.
Até que um dia eu disse não.
Não queria mais.
Não mandaria outra.
Foi nesse momento que a situação deixou de ser apenas uma conversa entre duas pessoas.
Ele começou a me ameaçar.
Disse que espalharia as fotografias.
Que mostraria para outras pessoas.
Que eu deveria fazer o que ele queria.
E então eu conheci um sentimento que nunca havia experimentado daquela maneira:
o medo.
Um medo que não ficava apenas na cabeça.
Estava no estômago.
No peito.
Nas mãos.
Na dificuldade de dormir.
Na vontade de desaparecer.
Eu tinha 16 anos e acreditava que minha vida inteira poderia acabar por causa daquilo.
E, pouco tempo depois, ele fez aquilo que havia prometido.
Compartilhou as imagens com amigos.
A notícia começou a circular.
E, em uma cidade pequena, uma coisa assim não permanece escondida por muito tempo.
Eu descobri através de uma amiga da escola.
Quando ela me contou, senti como se o chão tivesse desaparecido.
Eu não sabia o que fazer.
Não sabia para quem pedir ajuda.
Não sabia como contar aos meus pais.
Minha família era conservadora.
Minha mãe era muito rígida e se preocupava profundamente com a reputação da família e com aquilo que as pessoas pensavam.
Na minha cabeça adolescente, eu não conseguia separar as coisas.
Eu não pensava:
"Alguém fez uma coisa errada comigo."
Eu pensava:
"Eu fiz alguma coisa errada."
E essa diferença me destruiu.
Passei a acreditar que eu era uma vergonha.
Que todos estavam falando de mim.
Que meus pais jamais me perdoariam.
Que aquela fotografia seria a única coisa que as pessoas enxergariam quando olhassem para mim.
Durante dias, eu praticamente parei de viver.
Eu não conseguia dormir direito.
Não conseguia comer.
Ficava nervosa o tempo inteiro.
Qualquer pessoa olhando para mim parecia saber.
Qualquer conversa na rua parecia ser sobre mim.
Eu queria me esconder.
Mas não havia onde me esconder.
Eu ainda precisava ir à escola.
Sentar em uma sala cheia de pessoas.
Conversar.
Responder aos professores.
Fingir normalidade.
Enquanto, por dentro, eu estava desmoronando.
Até que meu corpo simplesmente não aguentou.
Um dia, desmaiei dentro da sala de aula.
Fui parar no hospital.
E foi justamente ali que uma pessoa percebeu que aquilo não era apenas uma adolescente passando por uma fase difícil.
Minha professora de português havia observado minha mudança.
Meu comportamento.
Meu silêncio.
Meu nervosismo.
E aquele desmaio confirmou que alguma coisa estava muito errada.
Ela me procurou.
Sentou comigo.
E conversou.
Eu ainda me lembro da sensação daquele momento.
Porque eu estava esperando julgamento.
Esperava que ela dissesse que eu havia feito uma coisa errada.
Esperava bronca.
Esperava vergonha.
Mas ela fez o contrário.
Ela me acolheu.
Disse que sabia o que havia acontecido.
E, pela primeira vez desde que tudo começou, eu consegui respirar um pouco.
Ela não me perguntou por que eu tinha feito aquilo como quem procurava uma culpada.
Ela tentou entender como eu estava.
E talvez essa tenha sido uma das maiores lições que aquela experiência me deixou:
às vezes, a primeira coisa que uma pessoa em sofrimento precisa não é de uma solução.
É de alguém que diga:
"Eu estou aqui."
Minha professora se ofereceu para conversar com meus pais.
Eu tinha medo.
Muito medo.
Mas aceitei.
Ela foi comigo até minha casa.
Reuniu meus pais.
E contou tudo.
Antes de começar, pediu que eles tentassem me acolher.
Que não me destruíssem com palavras.
Que entendessem que eu já estava sofrendo.
Meus pais ficaram em choque.
Houve lágrimas.
Raiva.
Indignação.
E, principalmente, muita preocupação.
Precisaram saber quem era o rapaz.
Eu tremia enquanto contava.
Quando minha professora foi embora, porém, o medo voltou.
Eu não sabia o que aconteceria depois.
Fui para o quarto.
Fechei a porta.
E chorei.
Chorei durante horas.
Até meu corpo não aguentar mais.
Naquela noite, eu sentia que minha vida tinha perdido o sentido.
A vergonha havia tomado conta de mim.
Eu não enxergava futuro.
Não enxergava uma saída.
Não conseguia imaginar que um dia aquilo seria apenas uma lembrança.
Para mim, aquilo era tudo.
E foi naquela madrugada que cheguei ao ponto mais escuro daquela história.
Tentei tirar minha própria vida.
Não quero entrar em detalhes sobre como fiz isso.
Não porque tenha vergonha de contar, mas porque hoje entendo que o importante não é o método.
O importante é compreender o tamanho do desespero em que eu estava.
Eu queria que aquela dor parasse.
Queria deixar de sentir aquela vergonha, aquele medo, aquela sensação de que nunca mais conseguiria olhar para ninguém.
Mas eu sobrevivi.
E, quando acordei no dia seguinte, alguma coisa dentro de mim mudou.
Não foi uma transformação mágica.
A dor não desapareceu.
O medo continuava.
A vergonha continuava.
Mas eu estava viva.
E, de alguma maneira, precisava continuar.
Minha mãe foi comigo até a casa daquele rapaz.
Dessa vez, não como a mãe que eu tanto temia decepcionar.
Mas como uma mãe que precisava proteger a filha.
Ela exigiu que as imagens fossem retiradas.
Disse que, caso isso não acontecesse, procuraria as autoridades.
Ele retirou o que havia compartilhado.
Naquela época, a internet ainda não tinha a proporção que possui hoje, e, de alguma maneira, foi possível fazer com que aquilo deixasse de circular.
Mas apagar uma fotografia da internet não significa apagar o que ela deixou dentro de uma pessoa.
As imagens desapareceram.
As marcas ficaram.
Eu continuei vivendo.
Só que já não era a mesma menina.
Passei a carregar medo.
Medo de confiar.
Medo de me envolver.
Medo de gostar de alguém.
Medo de ser novamente manipulada.
Por muito tempo, qualquer aproximação masculina despertava em mim uma sensação difícil de explicar.
Eu tinha criado uma espécie de repulsa.
Uma mistura de medo, nojo e desconfiança.
Eu não queria me relacionar.
Não queria passar por aquilo novamente.
Então fiz o que muitas pessoas fazem quando não sabem como lidar com uma ferida:
segui em frente carregando-a.
Saí daquela cidade.
Fui estudar.
Comecei a conviver com outras pessoas.
Conheci uma realidade diferente.
Aos poucos, fui descobrindo que o mundo era muito maior do que aquela cidade pequena e que aquela história não precisava definir o resto da minha vida.
Mas algumas feridas demoram para cicatrizar.
Foi algum tempo depois que conheci alguém.
E essa pessoa acabou mudando alguma coisa dentro de mim.
Não sei se foi de uma vez.
Provavelmente não.
Afinal, algumas coisas que quebram por dentro precisam de tempo para serem reconstruídas.
Mas, pouco a pouco, comecei a perceber que talvez eu pudesse confiar novamente.
Que talvez eu pudesse gostar de alguém sem sentir que estava entregando a essa pessoa o poder de me destruir.
Que eu poderia dizer não.
Que eu poderia mudar de ideia.
Que eu poderia escolher.
Que eu poderia sentir desejo sem dever nada a ninguém.
E talvez tenha sido aí que uma nova versão de mim começou a nascer.
A menina que tinha aprendido a ter vergonha da própria curiosidade começou a descobrir que não havia nada errado em sentir.
O que estava errado era alguém ter usado aquilo contra ela.
Hoje, muitos anos depois, eu olho para a mulher que me tornei e às vezes penso naquela menina.
É curioso.
Quem lê minhas histórias talvez imagine que eu sempre fui essa mulher.
A mulher que fala de desejo.
Que escreve sobre sedução.
Que gosta de provocar a imaginação.
Que fala sobre fantasias sem tanta vergonha.
A libertina.
Mas existe uma história antes dela.
E talvez vocês precisassem conhecê-la.
Porque liberdade sexual não significa ausência de limites.
Sedução não significa manipulação.
Desejo não significa obrigação.
E compartilhar intimidade por vontade própria, entre pessoas que possuem maturidade e consentimento, é completamente diferente de ter a própria intimidade usada como instrumento de ameaça.
Hoje eu sei disso.
Aos 16 anos, eu não sabia.
E é justamente por isso que decidi contar.
Porque educação sexual não serve para incentivar adolescentes a fazer sexo.
Serve também para ensinar que eles têm direito a limites.
Que ninguém pode exigir uma fotografia íntima como prova de amor.
Que insistência não é carinho.
Que chantagem não é paixão.
Que ameaça não é demonstração de interesse.
Que dizer "não" continua sendo "não", mesmo quando existe sentimento envolvido.
E que, quando alguém ameaça expor uma pessoa, o problema não está na pessoa que foi exposta.
Está em quem decidiu violar sua intimidade.
Se existe uma coisa que eu gostaria que pais e mães levassem desta história é:
conversem com seus filhos antes que alguém converse com eles sobre sexualidade da maneira errada.
Não esperem que a primeira conversa aconteça quando alguma coisa já deu errado.
Perguntem.
Escutem.
Ensinem.
Criem um espaço em que um adolescente possa dizer:
"Eu fiz alguma coisa e estou com medo."
Sem medo de apanhar.
Sem medo de ser humilhado.
Sem medo de ser chamado de vergonha.
Porque, quando existe medo de contar em casa, o adolescente pode acabar enfrentando sozinho uma situação que nenhum adolescente deveria enfrentar sozinho.
E se você é pai ou mãe e está lendo isso, talvez uma das coisas mais importantes que possa ensinar ao seu filho seja:
"Se algum dia alguma coisa acontecer, venha falar comigo. Primeiro eu vou te proteger. Depois nós vamos resolver o problema."
E se você é adolescente e está vivendo alguma situação parecida com a que eu vivi...
Por favor, não carregue isso sozinho.
Se alguém está ameaçando divulgar suas imagens, tentando chantagear você ou usando alguma coisa íntima para controlar suas decisões, procure imediatamente um adulto de confiança e peça ajuda.
Você não precisa enfrentar isso sozinho.
Você não perdeu seu valor.
Você não deixou de ser digno.
Você não se tornou uma vergonha.
E, principalmente:
uma fotografia nunca será maior do que a pessoa que existe dentro dela.
Eu sei disso hoje.
Mas precisei viver muita coisa para aprender.
A menina de 16 anos que um dia acreditou que sua vida tinha acabado não sabia que, muitos anos depois, ela estaria aqui.
Escrevendo.
Criando.
Falando sobre desejo.
Falando sobre liberdade.
Falando sobre aquilo que um dia teve medo até de pensar.
Ela não sabia.
Mas sobreviveu.
E se tornou a mulher que hoje escreve estas histórias.
Talvez seja por isso que eu escreva.
Porque algumas histórias são apenas fantasias.
Outras são lembranças.
E algumas...
são cicatrizes que finalmente aprenderam a falar.




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