Por Acaso pt 2 🔥
A Mulher do Telefone
Ela abriu a porta devagar.
Por alguns segundos, nenhum dos dois disse uma palavra.
Ele estava ali.
A mesma postura confiante. O mesmo olhar que, semanas antes, havia feito seu corpo reagir antes mesmo que sua razão pudesse interferir.
Mas naquela noite havia algo diferente.
Ela não sorriu.
Ele percebeu.
— Aconteceu alguma coisa?
Ela cruzou os braços.
— Quem era a mulher que atendeu seu telefone?
O sorriso desapareceu.
Foi apenas por um instante.
Mas ela percebeu.
E aquele pequeno silêncio disse muito mais do que qualquer resposta poderia dizer.
— Você ligou para mim?
— Liguei.
— E ela atendeu?
— Atendeu.
Ele passou a mão pelo rosto e respirou fundo.
— Eu posso explicar.
Ela soltou uma risada curta, sem humor.
— Essa frase nunca começa uma boa história.
Ele entrou apenas depois que ela abriu espaço.
A porta se fechou.
E, pela primeira vez desde que o conhecera, ela não sabia se queria que ele se aproximasse ou se queria vê-lo desaparecer.
— Você mentiu para mim?
Ele sustentou o olhar dela.
— Não da maneira que você está pensando.
— Então me diga o que eu estou pensando.
Ele ficou em silêncio.
Ela sentiu o coração bater mais forte.
Não por desejo.
Dessa vez, era medo de descobrir que tudo aquilo tinha sido uma ilusão.
— Ela é minha namorada — ele finalmente disse.
Aquelas quatro palavras pareceram preencher o apartamento inteiro.
Ela desviou o olhar.
— Então eu fui o quê?
Ele se aproximou.
— Você foi a pessoa que eu não consegui esquecer.
— Isso não responde.
— Eu sei.
Ela sentiu os olhos arderem, mas se recusou a chorar.
— Você sabia que eu tinha namorado.
— Sabia.
— E mesmo assim...
— Mesmo assim eu me envolvi.
Ela o encarou.
— Então somos dois idiotas.
Ele quase sorriu.
— Talvez.
— Não ache graça.
— Não estou achando.
Ele estava perto demais.
Ela sentia o perfume dele, a respiração, a presença que durante semanas havia sido sinônimo de desejo.
Mas agora aquela proximidade também machucava.
— Eu terminei meu relacionamento por sua causa — ela confessou.
Ele ficou imóvel.
— Você terminou?
— Terminei.
— Por mim?
Ela respirou fundo.
— Não. Por mim. Porque percebi que estava vivendo uma coisa que já não fazia sentido. Mas você me fez perceber isso.
Ele abaixou os olhos.
Pela primeira vez, ela viu naquele homem algo que não conhecia.
Culpa.
— Eu não queria machucar você.
— Mas machucou.
Ele assentiu.
— Eu sei.
O silêncio voltou.
Então ele tirou o celular do bolso.
— Eu quero que você veja uma coisa.
Ela hesitou.
Mesmo assim, pegou o aparelho.
Havia uma conversa aberta.
O nome da mulher apareceu na tela.
E, abaixo dele, uma sequência de mensagens que fez o estômago dela apertar.
Não eram mensagens românticas.
Eram discussões.
Ciúmes.
Acusações.
E uma frase que fez seu sangue gelar:
"Se você continuar mentindo para mim, eu vou contar tudo."
Ela levantou os olhos.
— O que significa isso?
Ele guardou o celular.
— Significa que você entrou numa história que começou muito antes de você.
— E quem é ela?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Alguém de quem eu venho tentando me afastar.
Ela respirou fundo.
— E por que ela diz que é sua namorada?
Ele se aproximou novamente.
Dessa vez, ela não recuou.
— Porque, oficialmente, ela ainda é.
A sinceridade doeu mais do que uma mentira.
Ela fechou os olhos por alguns segundos.
— Então o que você quer de mim?
Ele respondeu sem hesitar:
— Você.
Ela abriu os olhos.
— Não é suficiente.
— Eu sei.
— Então prove.
Ele ficou diante dela, tão próximo que qualquer movimento poderia transformar aquela conversa em outra coisa.
Mas não a tocou.
— Eu preciso resolver minha vida antes de pedir que você faça parte dela.
Ela não esperava aquela resposta.
— E se eu não esperar?
Ele sorriu tristemente.
— Então vou ter que aceitar que perdi você.
Ela ficou olhando para ele.
Era estranho.
Durante semanas, tudo havia sido impulso.
Olhares.
Desejo.
Adrenalina.
Agora, pela primeira vez, havia alguma coisa mais perigosa.
Sentimento.
Ele se virou para ir embora.
Quando chegou à porta, ela chamou:
— Espera.
Ele olhou para trás.
Ela caminhou até ele.
Parou a poucos centímetros.
— Eu ainda não confio em você.
— Eu sei.
— Ainda estou com raiva.
— Eu sei.
— E talvez eu esteja cometendo um erro.
Ele respirou fundo.
— Talvez.
Ela sorriu pela primeira vez naquela noite.
— Pelo menos você finalmente está sendo honesto.
Então ela abriu a porta.
Ele saiu.
Mas antes que desaparecesse pelo corredor, virou-se.
— Amanhã eu vou resolver isso.
Ela não respondeu.
A porta se fechou.
Ela ficou encostada nela, tentando entender por que seu coração estava acelerado.
Então o telefone vibrou.
Uma mensagem.
Número desconhecido.
Ela abriu.
Havia apenas uma frase:
"Você realmente acredita em tudo que ele contou?"
Seu sorriso desapareceu.
Outra mensagem chegou imediatamente.
"Se quiser conhecer a verdadeira história, venha sozinha."
E, abaixo dela, um endereço.
Era um lugar que ela conhecia.
Um restaurante onde ela e ele haviam estado juntos.
Ela sentiu um arrepio percorrer o corpo.
Talvez aquela mulher não estivesse apenas tentando recuperar o namorado.
Talvez ela soubesse algo sobre ele que poderia mudar tudo.
E, pela primeira vez, ela percebeu:
O perigo daquela história talvez nunca tivesse sido o desejo.
Era a verdade.
E agora ela estava prestes a descobri-la.
Continua...


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